Raphael Ribeiro/Jornal de BrasíliaBrasília, 02 de julho – Aliviado com o bom desempenho que teve diante da CPI que investiga as denúncias de envolvimento de integrantes de governos e políticos com as atividades ilegais supostamente comandadas pelo contraventor Carlinhos Cachoeira, o governador Agnelo Queiroz diz que vai usar o mês de julho para fazer uma grande avaliação de sua equipe e dos projetos.
 
Admite que podem vir mudanças pela frente. Com uma agenda positiva para o semestre, calcada principalmente nas obras de mobilidade urbana, Agnelo sabe que vai precisar muito da Câmara Legislativa. Mas sabe, também, que os distritais estarão, mais do que nunca, envolvidos no processo de sucessão da presidência da Casa, hoje ocupada pelo petista Patrício.
 
Questionado como vai acompanhar esse processo, o governador preferiu medir as palavras, e jogar a responsabilidade para os parlamentares: ”O debate eleitoral, da renovação, tem que caminhar junto com o debate das coisas da cidade, da produtividade”. Acompanhe a entrevista:
 
 
O senhor afirma que está sendo vítima – assim como seu governo – de interesses políticos. Agora, passado o seu depoimento na CPI, o senhor acredita que vão deixá-lo em paz para governar?
O que ficou claro é que enfrentamos aqui uma articulação perigosa, com o puro objetivo de nos desestabilizar… Mas isso ficou explicado na CPI… Acredito que por trás desse grupo existam interesses econômicos e políticos. E, por isso, acredito que ainda vão haver outras tentativas… Mas no que depender do meu governo, as portas estarão sempre fechadas. Nós provamos isso. Foram várias tentativas feitas pelo grupo do Cachoeira para se infiltrar no nosso governo. Só que nenhuma deu certo.
 
Diante da sua convocação para a CPI, o senhor percebeu que precisava fortalecer a sua bancada de apoio no Congresso. E agora que as coisas estão mais tranquilas, Geraldo Magela e Paulo Tadeu vão voltar para o Buriti ou permanecerão lá?
O papel que eles desempenharam lá foi de fundamental importância. Mas voltar ou ficar será uma decisão que eles deverão tomar. O que ficou claro é que aqui no GDF ou lá no Congresso os dois são peças importantes. Não preciso de aliados lá para me defender, mas para defender Brasília, o povo e os interesses do Distrito Federal. Agora, será votada a LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) da União, e precisamos defender mais recursos para a nossa cidade. Esse é só um exemplo…
 
Se eles não voltarem é uma boa hora para fazer mexidas na sua equipe?
Não estamos pensando em fazer uma reforma administrativa. Porém, no início do ano reuni a equipe e deixei bem claro que este seria o ano da virada. Passamos o primeiro ano arrumando a casa, recebemos uma herança maldita. Mas o discurso agora não pode ser mais esse. Cobrei de todos que queria que as coisas funcionassem. Agora, estou cobrando a entrega dos produtos. Quer dizer, houve um tempo para fazer projetos. Agora, é hora de tirá-los do papel. Quem não der conta de fazer isso terá de ser remanejado. De repente ele está num lugar, mas pode render melhor em outro. O que precisamos é de resultados. A população precisa enxergar isso. Se no primeiro ano ficamos sentados planejando, agora é a hora de ficar de pé e realizar.
 
Mas muito do que precisa sair do papel precisa do aval da Câmara Legislativa. O senhor está satisfeito com o desempenho da sua base aliada lá?
Olha, é preciso lembrar que os deputados distritais são independentes. Foram eleitos pelo povo e devem prestar contas a ele e não ao governador. Eu não tenho do que reclamar… Mas se você me perguntar se poderia ficar melhor eu diria que poderia. A Câmara também precisa de um lado executor, de ter agilidade. Se a conversa ficar apenas no âmbito da questão política, vai haver problemas. Às vezes, o coletivo tem que falar mais alto que o interesse individual de cada um. Mas volto a dizer que construímos uma base sólida, lembrando que reunimos partidos que nem sempre estiveram do mesmo lado. É um grande exercício…
 
Por conta desse viés político, o senhor teme que ocorra com o PPCUB (Plano de Preservação do Conjunto Urbanístico de Brasília) o mesmo que com o PDOT (Plano Diretor de Ordenamento Territorial)? Demorar demais para ser votado?
Não. Acho que com o PPCUB vai ser bem mais fácil, uma vez que o PDOT foi uma herança, já veio desde 2009 com problemas de inconstitucionalidade. É fruto da crise do passado, mas que nos esforçamos para resolver. Já o PPCUB nasceu no nosso governo, fizemos todo o processo de acordo com o que achávamos certo, ouvindo a população em audiências. Agora, quando ele chegar na Câmara, só vai coroar esse debate, lembrando que na Câmara haverá mais discussão. Mas terá um rito bem diferente.
 
Mas a questão do PPCUB está muito ligada à manutenção da cidade Patrimônio Cultural da Humanidade… Temos oito meses para atender às recomendações da Unesco, não é?
Sim. Por isso que precisamos, às vezes, deixar as questões políticas de lado em prol do bem maior da sociedade. Vamos trabalhar em conjunto com o Legislativo para atender a todas essas recomendações.
 
O senhor teme que a eleição na Câmara Legislativa do novo presidente possa atrapalhar os trabalhos e as metas do GDF?
Trata-se de um processo natural, que ocorre a cada dois anos, como ocorre em outros parlamentos. E o debate eleitoral, da renovação, tem que caminhar junto com os debate das coisas da cidade, da produtividade. Temos projetos da maior importância que serão enviados para análise dos distritais e confio plenamente que isso vai ocorrer concomitantemente. É isso que a população quer. Acho que dá para conciliar. E acho que nós devemos, todos nós, não deixar que o ritmo caia.
 
E o Buriti, vai acompanhar de mais longe ou de mais perto essa eleição?
Essa é uma atribuição exclusiva da Câmara Legislativa, da responsabilidade dela, mas… A gente acompanha muito mais como força política do que como Executivo. Mas não tem como não acompanhar, pois trata-se de uma questão da cidade, resguardada a independência de cada poder. Temos uma base aliada lá que merece toda nossa atenção.
 
E a licitação do transporte? Está demorando muito. O senhor está preocupado com isso?
Claro. A situação do transporte é muito grave. As empresas prestadoras de serviço passam por um momento muito delicado. Estamos fazendo intervenções paliativas, como no caso da região de Planaltina e Sobradinho, mas sabemos que é preciso muito mais. Os ônibus estão quebrando, colocando em risco a vida das pessoas. E essa renovação é um apelo de toda a cidade. Mesmo quem não usa o sistema está preocupado. Mesmo quem anda de carro quer essa renovação. E está tudo direito, dentro da legalidade, uma licitação aberta, sem nenhum senão, um modelo para todo o País.
 
Mas o TCDF não libera…
Estamos fornecendo todas as informações que eles estão pedindo… Acredito que neste mês de julho teremos boas novidades.
 
O senhor acha que é zelo ou há algum tipo de interferência?
Acho que é uma análise que tem que ser feita em profundidade. É lógico que o quanto antes isso for liberado é melhor. Mas se é para não termos problemas lá na frente, acho que é melhor que demore agora.
 
Só que enquanto isso a população sofre…
É um perigo. Estamos lidando com vidas.
 
Essa questão da mobilidade urbana vai marcar o seu governo, assim como o término da construção do estádio…
Sim. As pessoas vão gastar menos tempo no trânsito para ir e vir. Isso mexe com a qualidade de vida de toda a cidade. E a primeira obra que vamos entregar será a do VLP, que liga Santa Maria e Gama ao Plano Piloto. Agora, estamos nos preparando para a segunda obra, de Ceilândia para o centro de Brasília, que inclui os túneis no centro de Taguatinga. Isso vai desafogar o trânsito nas pontas da EPTG, em Taguatinga e na Octogonal. E estamos nos preparando para licitar a expansão do metrô. Todas essas obras com recursos do PAC da Mobilidade em parceria com o Governo Federal. Já o sistema do VLP, ligando Planaltina ao final da Asa Norte, essa nós estamos buscando parceiros, pois será feita com os nossos recursos.
 
Vai ser uma mudança de paradigma muito grande mudar essa cultura do carro em Brasília…
É, mas hoje, nossas avenidas largas estão pequenas. Mas não é só a qualidade de quem anda de transporte público que é afetada. Quem dirige carro também sofre. Então, quando oferecermos um transporte de qualidade, com horários e linhas definidas e cumpridas, todo mundo vai querer usar. Mas primeiro precisamos oferecer um serviço adequado, para depois passar para essa quebra de paradigmas.
 
E para quem preferir, ainda assim, o carro.. Como melhorar a vida dessas pessoas?
Não podemos permitir que a cidade vire esse amontoado de carros, em cima de calçadas e gramados. A cidade virou um grande estacionamento, descaracterizando-a. Assim, quem quiser ir de carro vai poder ir, vai ter onde estacionar, vai pagar por isso. Mas se não quiser, terá a opção de um bom transporte coletivo. Por isso vamos construir os estacionamentos subterrâneos. Mas já aviso que vai ser para quem quiser pagar…
 
Outro problema grave e recorrente na nossa cidade é a poluição visual causada pelo excesso de equipamentos publicitários. Não tem como controlar isso?
Essa propaganda tem que estar em lugar permitido, definido em legislação. Não pode virar uma coisa anárquica, bagunçada. Não podemos deixar alimentar essa guerra de quem explora a propaganda. Inclusive, foi criado um grupo de trabalho para tratar desse assunto e retirar quem está instalado de forma irregular. Acho que a melhor forma é regulamentar. Não podemos impedi-los de desempenhar suas atividades. Isso acaba estimulando a clandestinidade, mas temos que ter regras e fiscalizar que elas possam estar onde devem estar, preservando a cidade, o patrimônio. Temos que ter cuidado para que a poluição não fique desmedida.
 
Sobre a publicização dos salários dos servidores… O senhor está preparado para essa briga com os servidores? 
É o que determina a Lei de Acesso Geral à Informação. Antes mesmo dela nós já havíamos tomado várias medidas nesse sentido, de transferência. Os salários já estavam disponíveis, em tabelas, mas não de forma individualizada. Nós vamos cumprir a lei. Se houver alguma determinação judicial que altere isso, nós vamos cumprir. Mas também vamos brigar pelo direito do cidadão saber como o Estado gasta o dinheiro dele.
 
Dentro dessa agenda positiva, de grandes projetos, como fica a questão da saúde, que ainda não atende o brasiliense como ele quer?
Nossa atenção hoje está voltada para uma mudança cultural também. Governos anteriores esqueceram que a saúde primária é que merece atenção,  com programas como o Saúde da Família e o Clínicas da Família, amparados pelas UPAs, onde serão atendidos os casos menos graves, funcionando 24 horas. É pra lá que o cidadão tem que ir se não estiver com doença grave e não para o pronto socorro…
 
É por isso que alguns centros de saúde já estão funcionando com a agenda aberta?
Sim. Eles estão abertos 12 horas, com agenda aberta, sem precisar marcar consulta com antecedência. Hoje, já tem um projeto piloto funcionando no Centro de Saúde 1 de Ceilândia, que será reproduzido em outros centros. Ele funciona de 7h às 19h. Dois centros de Samambaia estão funcionando assim também, e isso vai ser ampliado para outras unidades. No caso de Ceilândia, a procura por atendimento no pronto socorro já diminuiu. Isso porque o pronto socorro tem que dar atenção para casos graves, com risco de morte. O pronto socorro não é para fazer atendimento de consulta. Cada regional terá pelo menos um centro funcionando dessa forma, com a agenda aberta.
 
E o que o senhor tem a dizer sobre a falta de UTIs, que tem sido um grande foco de descontentamento, obrigando os pacientes a recorrerem à Justiça?
Estamos entregando nos próximos dias mais 30 leitos de UTI no Hospital de Base e ampliando a quantidade em outras unidades. Samambaia e Gama ganharam novos leitos e Ceilândia também. Em um ano e meio já entreguei mais da metade do total de leitos que tínhamos quando assumimos. E até o final do ano vamos dobrar. Vamos fazer em dois anos o que foi feito em 50 anos.
 
Mas R$ 530 milhões teriam deixados de ser gastos no ano passado na área de saúde…
Nem sempre o dinheiro pode ser gasto como a gente quer… Tem dinheiro carimbado, que só pode ser usado para um tipo de despesa.  Mas nossa vontade é que isso não ocorra, com a apresentação de projetos, gastando o dinheiro da melhor forma possível. Tem que ser bem gasto. E ainda há muita coisa por fazer…  Um dos nossos maiores sucessos é o caminhão da mulher, que é uma unidade móvel, que tem percorrido várias cidade, fazendo exames de mamografia, ultrassonografia e o preventivo para o câncer de colo de útero. Em três meses estamos ultrapassando oito mil exames. Estamos fazendo mais exames na unidade móvel do que nas unidades instaladas. Nos próximos dias vai chegar outra unidade, ficando duas, e estamos encomendamos outras… Todas as cidades estão pedindo.

 Jornal de Brasilia