Valor Econômico – 15/08/2011
Ainda é cedo para estimar os efeitos do recrudescimento da crise financeira nas economias avançadas sobre o Brasil, mas já há um consenso quanto ao caminho que o governo deve trilhar para reagir à turbulência. Por esse consenso, o remédio para enfrentar uma provável queda da atividade econômica é de natureza monetária e não fiscal.
A crise nos mercados americano, europeu e japonês frustrou o processo de recuperação da economia mundial, iniciado em 2009. O Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos, por exemplo, começou 2011 com perspectiva de crescer em torno de 3,5%, mas deve avançar abaixo de 2%. Os países da zona do euro podem ter desempenho ainda pior e, o Japão, crescimento negativo.
A debilidade dessas economias afetará as nações em desenvolvimento, como China, Índia e Brasil, líderes do crescimento mundial nos anos recentes. A tendência é que os preços das commodities, que já vêm arrefecendo desde o início do ano, caiam mais fortemente nos próximos meses.
A queda das commodities diminui o saldo da balança comercial brasileira, pressionando o real frente ao dólar. Apenas esse canal de transmissão já seria suficiente para diminuir a taxa de crescimento da economia, afinal, os produtores de commodities estão entre os mais competitivos do país. Há, no entanto, outros fatores a serem considerados. Um deles diz respeito às expectativas de consumidores e empresas; outro, a um possível travamento do crédito doméstico por parte dos bancos.
O PIB do Brasil já está em processo de desaceleração, como resultado da política de combate à inflação promovida pelo Banco Central (BC). O agravamento da crise mundial coincide, portanto, com o fato de a atividade econômica estar perdendo força. Chamam atenção informações de que os estoques em setores como o automobilístico e o siderúrgico já estavam, em julho, em níveis historicamente elevados.
Os números do mercado de trabalho ainda não mostram arrefecimento, mas, nos últimos dias, várias empresas começaram a anunciar corte de investimentos e redução no quadro de pessoal. Essas notícias têm o efeito de aplacar o ímpeto dos cidadãos ao consumo.
Num cenário de aumento da taxa de desemprego, as instituições financeiras, por sua vez, tendem a moderar a concessão de crédito. Uma motivação adicional pode contribuir para uma postura mais conservadora. Desde o início da nova fase da crise mundial, as ações dos grandes bancos internacionais, principalmente os americanos e europeus, são as que mais têm perdido valor no mercado.
Os investidores estão, claramente, ressabiados. Temem que a debilidade das finanças públicas nas economias centrais afete a saúde dos bancos. Nunca é demais lembrar que a crise de 2008 foi, basicamente, uma crise bancária. A atual é de natureza fiscal, mas não se descarta a possibilidade de atingir o sistema financeiro.
Esse ambiente leva os bancos, mesmo os brasileiros, que são saudáveis e não estão diretamente expostos à turbulência internacional, a adotar uma postura mais cautelosa em relação à oferta de crédito. Em 2008, fenômeno parecido ocorreu no Brasil. Na ocasião, para enfrentar o problema, o governo obrigou os bancos públicos a aumentarem os recursos disponíveis para crédito às empresas e famílias.
Sem dúvida, a estratégia funcionou, mas, agora, como o próprio governo reconhece, o espaço fiscal para repetir a dose é praticamente inexistente. A alternativa, portanto, para evitar que o PIB caia de forma dramática na hipótese de aprofundamento da crise mundial é o Comitê de Política Monetária do BC (Copom) reduzir os juros.
Analistas consideram o momento atual uma janela de oportunidade para o Brasil se livrar daquilo que muitos consideram uma maldição: o fato de o país ostentar o título de campeão mundial de juros. De fato, a depender da manutenção do equilíbrio fiscal, com o qual a presidente Dilma Rousseff se comprometeu mais uma vez, na semana passada, a chance de superar essa deficiência é histórica.
Evidentemente, o governo terá que lidar com obstáculos que, hoje, impedem os juros de cair. Um deles é a indexação de grande parte da dívida pública à taxa básica de juros (Selic), usada pelo Banco Central para calibrar a política monetária.