downloadBrasília, 17 de agosto – As dificuldades no cenário macroeconômico brasileiro, que já vinham se desenhando nos últimos trimestres, se tornaram ainda mais evidentes nos balanços das companhias abertas brasileiras de abril a junho deste ano. As empresas vêm sofrendo principalmente com a queda da atividade no mercado interno e com os juros, o dólar e a inflação altos. Além disso, atravessaram o trimestre na expectativa de piora nas notas de crédito soberano, o que foi confirmado na semana passada pela Moody’s. A agência rebaixou o rating brasileiro em um degrau, mas manteve o grau de investimento. A perspectiva que passou de negativa para estável deu um fôlego de mais ou menos seis meses, segundo analistas, para que o País encontre um caminho para organizar suas contas, mantendo por ora o selo de investment grade.

Para se adequar ao quadro do trimestre encerrado em junho, as companhias promoveram ajustes mais fortes, como redução de estoques, de custos com pessoal e investimentos. Praticamente todos as áreas têm enfrentado queda na demanda. “O que temos visto em geral é um recuo na receita operacional das companhias, em alguns setores mais, outro menos, mas sobretudo no que se refere ao mercado interno”, comenta Marco Aurélio Barbosa, analista da CM Capital Markets.

Um exemplo é a Petrobras, cujo volume total de derivados vendidos no mercado doméstico recuou 7,9% no segundo trimestre deste ano em relação ao mesmo período do ano passado. A comercialização de diesel, principal derivado vendido pela estatal, caiu 7,6% na mesma base comparativa, enquanto a de gasolina diminuiu 13,3%.

A queda na venda de combustíveis também tem reflexos no tráfego nas estradas. O volume de veículos que passaram pelas praças de pedágio da Arteris caiu 5,1% no segundo trimestre de 2015, em relação ao mesmo período de 2014, enquanto a CCR, que tem 80% das receitas ligadas a pedágio, registrou queda de 4% no tráfego do conjunto de rodovias administradas. “Além da queda no tráfego os custos aumentaram acima da inflação e por mais que sejamos disciplinados, sempre causa impacto”, explicou Marcus Macedo, do departamento de Relações com Investidores da CCR.

“O tráfego de veículos pesados, que há dois anos tinha boa performance, caiu bastante, refletindo o enfraquecimento da atividade econômica, e o de veículos leves também recuou”, afirma Ricardo Kim, analista da XP Investimentos.

Outro setor que vem sentindo bastante a desaceleração econômica é o siderúrgico, por conta, inclusive, da queda na produção e nas vendas do setor automotivo. Na Usiminas, as vendas de aço para o mercado interno no segundo trimestre foram 23,1% menores do que no primeiro trimestre e 31,2% mais baixas do que o segundo trimestre de 2014.

Kim, da XP, lembra que, para enfrentar esse cenário, a siderúrgica mineira anunciou em maio o desligamento temporário de alto-fornos nas usinas de Cubatão (SP) e Ipatinga (MG), reduzindo a produção de ferro gusa em cerca de 120 mil toneladas por mês. Além disso, anunciou a redução da jornada de trabalho para as áreas administrativas em um dia útil por semana, com redução de salário proporcional, por tempo indeterminado.

Ainda para minimizar o impacto da baixa demanda interna, a Usiminas aumentou suas exportações ante o trimestre imediatamente anterior em 181,7%. Em relação ao segundo trimestre, as exportações de aço foram 92,7% maiores. Em teleconferência com analistas, o vice-presidente de Tecnologia e Qualidade da siderúrgica, Rômel Erwin de Souza, comentou que o cenário macroeconômico atual é adverso e “exige” uma atitude ante esse ambiente.

Com o desaquecimento do mercado interno, a Petrobras também aproveitou o trimestre para intensificar as vendas externas, porém em um momento de queda para os preços do petróleo no mercado internacional. A Vale também tem enfrentado preços do minério de ferro em patamares bastante baixos no mercado externo mas acabou sendo beneficiada pelo dólar valorizado. Após amargar três trimestres consecutivos no vermelho, a mineradora fechou o segundo trimestre com lucro de R$ 5,14 bilhões. O câmbio também tem ajudado outras exportadoras, como as do setor de papel e celulose e frigoríficos, mas prejudicado as empresas que têm dívidas na moeda norte-americana.